Estudo revela onde o maior felino das Américas vive na Amazônia

  • 03/04/2025
(Foto: Reprodução)
Pesquisa inédita estimou a densidade populacional da onça-pintada em 22 áreas protegidas e 4 países que abrigam a floresta amazônica. Pesquisa estima densidade do felino em áreas protegidas da Amazônia Emiliano Ramalho Quantas onças-pintadas vivem na Amazônia? Essa pergunta, simples na forma, acaba de ganhar uma resposta robusta com base em anos de trabalho de campo, parcerias científicas e mais de 40 campanhas com armadilhas fotográficas espalhadas pela floresta. Uma pesquisa inédita, liderada pelo biólogo Guilherme Alvarenga, analista de pesquisa do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, estimou, com base em dados coletados entre 2005 e 2020, a densidade populacional da onça-pintada (Panthera onca) em 22 áreas protegidas da Amazônia, nos territórios do Brasil, Peru, Colômbia e Equador. As áreas protegidas analisadas na pesquisa possuem diferentes categorias de proteção, como Parques Nacionais, Reservas Extrativistas, Terras Indígenas, entre outras. Elas abrangem uma diversidade de ambientes, incluindo florestas de terra firme e regiões alagadas, como as florestas de várzea e igapó. Ao todo, 6.389 onças-pintadas foram identificadas nas imagens obtidas por armadilhas fotográficas, que permitem reconhecer cada indivíduo pelas pintas únicas em sua pelagem — como se fossem impressões digitais naturais. As informações coletadas foram processadas por meio de um modelo espacial de captura-recaptura, permitindo calcular a densidade de onças-pintadas em cada uma das áreas protegidas estudadas. A média registrada foi de 3,08 indivíduos por 100 km², embora esse número tenha apresentado variações significativas entre as diferentes regiões analisadas. O funcionamento do método é relativamente simples: as câmeras utilizadas possuem sensores de movimento e calor, que são ativados automaticamente quando um animal passa em frente a elas. Como cada onça tem um padrão exclusivo de pintas, os pesquisadores conseguem identificar cada indivíduo registrado. As onças-pintadas foram identificadas nas imagens obtidas por armadilhas fotográficas Emiliano Ramalho A partir disso, essas informações são inseridas em modelos estatísticos que, combinando os dados de movimentação dos animais, tamanho da área monitorada e número de vezes que cada onça aparece nas fotos, estimam quantos indivíduos vivem naquela região. Dessa forma, é possível chegar a estimativas robustas e padronizadas da densidade populacional da espécie em diferentes pontos da floresta. "Eu diria que a gente conseguiu ter uma amostragem bem legal, uma cobertura bem interessante, o que nos permitiu entender que foi o que eu diria, o principal resultado do nosso trabalho que foi reforçar, mostrar mais uma vez a importância que as unidades de conservação, sejam elas de base indígena ou não, têm para a preservação das onças e reforçando o que já existia na literatura para outros grupos também", explica Guilherme Alvarenga, autor do artigo. Quase 10 onças por 100 km²: Mamirauá lidera A campeã de densidade foi a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no estado do Amazonas. Lá, a média foi de impressionantes 9,97 onças a cada 100 km² — um número comparável aos maiores já registrados para a espécie no Pantanal. Já a menor densidade foi observada na Reserva Biológica do Cuieiras, também no Amazonas, com apenas 0,6 onças por 100 km². Essa variação, segundo o estudo, se explica principalmente pela produtividade primária da floresta, ou seja, a capacidade daquele ecossistema de gerar biomassa — o que está diretamente ligado à oferta de presas para os grandes felinos. "Os nossos estudos, as nossas modelagens, elas mostraram que a densidade de onças é diretamente ligada à produtividade primária da floresta. O que é isso? O quanto que a floresta consegue ser produtiva ou não, no sentido de crescimento, de produção de frutos e tudo mais. Mamirauá está numa das áreas com maior fertilidade da Amazônia porque ele se encontra numa região de várzea", diz o autor do artigo. Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá teve uma média de 9,97 onças a cada 100 km² Miguel Monteiro Guilherme explica que as áreas de várzea são florestas que alagadas por rios de água branca, como o Amazonas ou Solimões, que vêm de uma região que é mais jovem geologicamente, a região dos Andes. LEIA TAMBÉM Entre secas e cheias: diferenças no modo de vida das onças-pintadas na Reserva Mamirauá, no Amazonas Conheça a comunidade que vive de acordo com o sobe e desce das águas Tanto a região andina, da interface Amazônia-Andes, quanto as calhas, as áreas alagadas por rios que nascem nessa região, são regiões que têm alta quantidade de nutrientes e, por consequência, os solos são mais férteis e as florestas tendem a ser mais produtivas, beneficiando todo o restante da cadeia alimentar. A gente tende a ter uma maior riqueza e abundância, maior riqueza de espécie, maior abundância de fauna dessas espécies, o que em última etapa vai beneficiar os predadores, os carnívoros topo da cadeia, como a onça, e Mamirauá é uma dessas regiões, então provavelmente as altas densidades de onça na região provêm dessa disponibilidade de presas que permite que a unidade de conservação mantenha uma população tão alta Importância das áreas protegidas Apesar de cobrirem apenas cerca de 5% da área total da Amazônia, as 22 unidades analisadas já abrigam mais onças do que existem tigres no mundo — cuja população global na natureza está estimada em cerca de 3.000 indivíduos. Esse número mostra como a Amazônia ainda é um reduto fundamental para a conservação da espécie, e como as áreas protegidas e terras indígenas desempenham um papel vital nesse cenário. "Se nesse tamanho a gente conseguiu estimar 6 mil onças, você imagina o quanto de onça que existe na Amazônia, né, o que vem como alento pra conservação. Apesar de toda a perda de hábitat, todo desmatamento, todas as populações que estão ficando isoladas, pelo menos ainda na Amazônia, tudo indica que a gente tem uma população muito saudável, que tem que ser cuidada, tem que ser monitorada e para garantir que ela permaneça dessa forma", informa o pesquisador do Instituto Mamirauá. Esse resultado reforça o que outros estudos já indicavam: o Brasil provavelmente abriga a maior população de onças-pintadas em toda a área de distribuição da espécie — e grande parte dessa população está na Amazônia. Por isso, segundo o pesquisador, é fundamental que esse privilégio seja levado em conta na formulação de políticas públicas voltadas à conservação da fauna e dos ecossistemas brasileiros. Esse resultado reforça o que outros estudos já indicavam: o Brasil provavelmente abriga a maior população de onças-pintadas em toda a área de distribuição da espécie — e grande parte dessa população está na Amazônia. Por isso, segundo o pesquisador, é fundamental que esse privilégio seja levado em conta na formulação de políticas públicas voltadas à conservação da fauna e dos ecossistemas brasileiros. As informações coletadas foram processadas por meio de um modelo espacial de captura-recaptura, permitindo calcular a densidade de onças-pintadas em cada uma das áreas protegidas estudadas Miguel Monteiro O estudo também reforça a importância do monitoramento contínuo e da valorização de territórios com alta produtividade primária. Para Guilherme Alvarenga, o mapeamento da densidade de onças pode orientar políticas públicas de conservação, priorizando áreas-chave da floresta, especialmente as várzeas. “A gente sabe a importância que as áreas protegidas têm, sejam elas indígenas ou não, para as onças pintadas e, claro, para outras espécies. Existem áreas no Brasil, na Amazônia, que não foram tituladas, e elas não têm designação ainda. Então, por exemplo, elas poderiam ser transformadas em áreas protegidas para, assim, garantir o status, a qualidade ambiental que elas têm no momento e preservar todas as populações”. Apesar da força simbólica e ecológica da onça-pintada, os riscos à sua sobrevivência persistem — inclusive dentro de áreas protegidas. Para Alvarenga, o maior perigo pode estar no que acontece ao redor dessas unidades. “A minha recomendação, por exemplo, de ordem prática seria focar nas áreas não designadas que estão aí abandonadas servindo para a grilagem e para o avanço do desmatamento e transformá-las em parques e unidades de conservação para a gente manter o máximo de área protegida dentro do bioma amazônico”, reflete o biólogo. Brasil provavelmente abriga a maior população de onças-pintadas em toda a área de distribuição da espécie Emiliano Ramalho A perda de conectividade entre territórios é um problema grave, não só para as onças, mas para toda a biodiversidade amazônica. Esse isolamento, explica o pesquisador, favorece o chamado efeito de borda: fragmentos antes contínuos passam a receber mais luz solar, vento e calor nas extremidades, o que torna a floresta mais seca e vulnerável a queimadas. Ao longo do desenvolvimento da pesquisa, uma das maiores surpresas foi a comprovação da enorme quantidade de onças-pintadas abrigadas pelas áreas protegidas da Amazônia. Mesmo com uma amostragem pequena diante da vastidão do bioma, o número de onças identificadas foi significativo, superando o de países inteiros que também abrigam a espécie, como o México. A proteção da onça-pintada e da natureza como um todo também passa pelo comportamento da sociedade. Segundo Alvarenga, é fundamental que as pessoas consumam com mais responsabilidade e consciência sobre os impactos gerados. “A gente vive num planeta com recursos que são finitos e tudo que a gente consome vem desses recursos, então a gente precisa ter um pouco de consciência, e para além disso eu acho que a gente precisa começar a se posicionar e dar mais valor para a natureza, para a biodiversidade que o nosso país abriga e começar a cobrar políticas públicas dos nossos governantes para que nós, como nação, possamos ter planos de longo prazo para manutenção da floresta, da biodiversidade, dos nossos biomas”, finaliza. *Texto sob supervisão de Lizzy Arruda VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2025/04/03/estudo-revela-onde-o-maior-felino-das-americas-vive-na-amazonia.ghtml


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